Apresentação

O mar nos espera

Um festival, por definição, é um evento que junta pessoas e promove o intercâmbio entre elas, em diversos níveis: trocas profissionais, afetivas, estéticas, de conhecimento. Sendo um festival de audiovisual, então,  essas trocas possuem um componente peculiar. Cada filme traz consigo as marcas dos territórios onde foram feitos: seus sotaques, paisagens, histórias. Reunir filmes e realizadores em um festival significa reunir a diversidade de um país em um só lugar. A potência que um evento assim carrega tem um efeito transformador em todos que passam por ele. Assim, o Visões Periféricas tem contribuído em seus 14 anos de existência, promovendo trocas que dão novos significados ao que definimos por periferia, um trabalho renovado todos os anos e que nunca se conclui porque a vida que cada filme espelha não cessa de se transformar. 

Neste ano, o Visões acontece de uma forma peculiar. Por força do momento que atravessamos, marcado por uma pandemia mundial, não iremos contar com a presença física dos realizadores e do público em um só lugar. Todos irão vivenciar o festival desde suas casas. Os filmes, reunidos desta vez em uma plataforma on-line, serão vistos de outra forma. É uma mudança grande que traz novos desafios ao esforço de manter a missão que o festival sempre cumpriu e, como toda mudança sempre traz oportunidades, estamos aproveitando para ampliar o alcance da proposta do festival. O país que reunimos em um só lugar nas edições anteriores, dessa vez pode ser visto de qualquer lugar. 

A experiência de assistir muda e, com ela, o jeito também de programar os filmes.  Eles vão estar disponíveis por mais tempo (48h) e poderão ser vistos na ordem e no tempo que o espectador julgar mais adequado. Essa liberdade, característica da internet, traz consigo uma forma nova de reunir esse Brasil, de promover trocas. Não ignoramos a importância que as trocas presenciais têm, mas neste momento em que todos devemos nos cuidar, aproveitamos aquilo que a tecnologia pode oferecer. Um tipo de presença que aproxima quem está longe e permite que mais pessoas possam usufruir dessa troca. 

Acreditamos que nada será como antes, mesmo quando a pandemia acabar, porque teremos vivenciado por um longo tempo uma outra forma de estar no mundo. É um tempo que exige muitas revisões, pessoais e sociais. Que exige que estejamos alertas. Um acontecimento dessa magnitude nos lembra a todos que habitamos um mesmo planeta e que somos frágeis diante de sua grandeza. Que o afluente de vida que habita o microcosmo de cada filme exibido neste ano se encontre com outros afluentes e se transforme em um rio forte e caudaloso. Naveguemos nesse rio, sigamos suas correntezas. O mar nos espera.

Marcio Blanco
Coordenador geral do Festival Visões Periféricas
Março de 2021